Se esforce para ler.
Brain Rot, Rage bait, Parassocial, Soberania cognitiva e por que a gente segue perdendo no jogo. E ainda: teoria da mente, repertório de enfrentamento e outros termos que deviam ser mais famosos.
Eu gostaria que esse texto fosse lido por todas as pessoas que amo e por todas as pessoas de maneira geral. Mas que ele não fosse só mais uma leitura que se faz todos os dias, fragmentada, não terminada e que passamos os olhos para saber do que se trata e damos por finalizada. Esse texto não está organizado ou foi editado por IA então você não vai encontrar os tópicos e resumos que tornam a leitura mais fácil, agradável e todas iguais. Desejo que você se esforce para ler.
2025 foi um ano em que a discussão sobre o cuidado cognitivo e por que estamos tão exaustos chegou nas plataformas que foram responsáveis por isso. Inúmeros episódios de podcasts, post de instagram, X, discussões no reddit, discord, textos e mais textos falando sobre alternativas ao excesso de telas e dicas de cuidado com a nossa atenção.
A sensação que fiquei é que enchemos nosso armário cognitivo com ecobags. Sabe?
Deixamos de usar as sacolas de plástico, mas super produzimos “ecobags” ou então criamos canudos de alumínio, no lugar de tomar direto no copo. A palavra do ano de 2025 foi Brain Rot, para nomear o que está acontecendo com nosso cérebro. O termo virou jogo no Roblox, tema de vídeos no youtube, criações de personagens na IA e pelúcia nos vendedores ambulantes das metrópoles (sim!). Do nosso jeitinho: a gente capitalizou e avacalhou um alerta.
Ainda em 2025 o termo Rage Bait povoou os portais de notícias, como se ninguém tivesse assistido o documentário O Dilema das redes, de 5 anos antes (ou o filme a Rede Social de 2010), e “descobrimos” que termos negativos e polêmicas são mais distribuídos pelos algoritmos porque o que nos incita raiva nos engaja mais. A Televisão aberta já sabia disso há tempos e apresentadores como Ratinho, Celso Russomano e Datena usaram bastante essa estratégia para manter suas audiências. A Publicidade também sabe disso há mais tempo ainda e quem se lembra das brigas do Guaraná Antartica com a Coca-cola que acabou fazendo um gol contra quando atacou a Coca diretamente e o público ficou com “pena” da marca e passou a consumir mais Coca?
Engajar pela raiva é uma forma que utiliza nosso funcionamento fisiológico humano como estratégia de aumentar o consumo e a venda. A redes estão cheias.
Mas é essa a única estratégia possível de engajamento que se faz valer, de maneira profunda, da nossa humanidade? Não. Nosso sistema nervoso também age no caminho do coletivo, de colaboração, no ritmo da natureza, mas por algum motivo não é esse caminho que é o mais utilizado. Daniel Pink em seu livro “Quando - A ciência do timing perfeito” referencia práticas culturais com a Hola num estádio de futebol ou o sistema de entrega de alimentação em algumas cidades da Índia e como tudo funciona sem horário marcado ou sistemas tecnológicos modernoss, mas “apenas” com a conexão (não de wifi!) real entre nós, seres humanos.
Talvez você já tenha ouvido falar de autorregulação de grupo, se trabalha com facilitação e mediação. Ou, mais fácil, tenha ouvido falar de bússola interna, sincronicidade, termos que tentam capturar e nomear o comportamento coletivo que tem um mesmo objetivo, mesmo sem a gente combinar antes via e-mail.
O ponto aqui é que: existem outras formas de buscar engajamento. Algumas pessoas fazem isso na internet, pouquíssimas, mas fazem. A Thais Farage é um bom exemplo. Pessoas decidiram usar a raiva e não a colaboração. Essa decisão é tomada diariamente por centenas de milhares de profissionais da comunicação e a análise de como isso impacta nossa saúde também vira conteúdo capitalizado. Tem até curso pra aprender a técnica que o João Kleber usou por anos no seu programa.
Aqui tem algo que preciso destacar: a tomada de decisão. Alguém sempre decide a estratégia, mesmo sem saber que é isso. Como seria se a estratégia fosse outra? Seriam outras histórias. Agora silenciadas de outras formas. Vandana Shiva chama de Monoculturas da mente.
“Trata-se de um novo imperialismo cognitivo, no qual dados, atenção e comportamentos são explorados como recursos, uma colonização invisível da mente e da cultura, automatizada e em escala global. Um padrão único decide o que vale como saber, enquanto vozes alternativas são silenciadas.” Soberania Cognitiva - Neocolonialismo Algorítmico.
Em novembro de 2025 fui para o Global Innovation Forum em Londres. Foi uma viagem de pesquisa para meu trabalho no Senac São Paulo. Para quem não sabe, sou Head (para usar um termo que o mercado compreende) do Geração Senac - Mostra de Inovação em Educação Profissional. O conteúdo do evento foi muito bem curado e colocado num formato bastante simples: um espaço corporativo de evento, palco baixo, duas telas de projeção, plenária, credenciais, almoço e coffee, caderno e caneta para anotações e adesivos lindos para colocar no notebook. Tive muitos aprendizados e insights que vou compartilhar por aqui ao longo das semanas, mas o que mais me chamou a atenção logo de cara é que NINGUÉM, absolutamente ninguém, ficava no celular durante o evento. Tenho o hábito de realizar essa observação onde vou, no metrô, na rua, na espera do médico, durante uma reunião, em restaurantes, em encontro de família e especialmente em eventos: quantas pessoas estão imersas no conteúdo digital? Quantas estão lendo um livro ou uma revista (sim, elas ainda existem e estão de novo em alta numa bolha intelectual)? Quantas estão conversando entre si? E quantas estão apenas respirando e observando a vida fora das telas? Geralmente essa observação me gatilha a ansiedade porque, como você deve imaginar, quase sempre, a maior parte das pessoas está com sua atenção sendo drenada por um dispositivo eletrônico móvel.
Chegar num evento na Europa, depois de um ano cansativo (gente eu estava EXAUSTA!), cuidando da saúde para não adoecer com o clima gelado e meu sistema imunológico certamente debilitado pelo oceano de cortisol de 2025, e me deparar com uma mesa de café da manhã com pudim de chia e shot de gengibre com manga foi um alívio. Mas ser abordada por pessoas de diferentes localidades do mundo enquanto tomava meu café foi algo que eu jamais teria imaginado acontecer. Já que não estavam imersas em seus espelhos pretos e tão pouco estavam resolvendo outras demandas do trabalho em seus notebooks, as pessoas estavam ali, presentes, e buscavam conversar com outras pessoas, para fazer o que o mundo corporativo chamava de networking, mas os maias e astecas chamavam de conversar mesmo.
Durante as palestras: nada de fotografar os slides.
Depois das palestras: nada de tirar fotos com os palestrantes para postar.
O que se via era a atenção dedicada ao que estava sendo dito, às perguntas que eram feitas ao final dos painéis, conversas depois das palestras para continuar a conversa mesmo, não só pra fazer volume nos comentários. E aquilo tudo mexeu muito comigo.
Fiquei pensando: é assim que vamos perder de novo nesse jogo.
Mas eu estava cansada e focada em ouvir, aprender, conhecer pessoas e conectar com meu objetivo de estar ali: pesquisa para o Geração Senac. E para quem me conhece, eu sempre vou muito focada aos eventos, nunca só para fazer presença. Deixei o pensamento no quadro mental de ideias e temas para rever depois.
Voltando ao Brasil, no mesmo novembro de 2025, fui a um outro evento de inovação, O Fast Company Innovation Festival, com um formato muito parecido com o GIF, os mesmos dois dias de evento, e com uma excelente curadoria de pessoas, que eu já conhecia e acompanho o trabalho há alguns anos. Algumas com quem já trabalhei quando fazia a curadoria do Senac Moda informação como a Daniela Klaiman, o Fabio Amado, a White Rabbit e MM Izidoro (que é meu amigo de infância <3 e fez a melhor fala do evento!). Apesar da boa curadoria, uma coisa ficou absolutamente nítida como diferença de conteúdo: a perspectiva de pessoas que falam de inovação de um país do Sul Global e que vivem diariamente em cenários de inseguranças e instabilidade. O tom das falas era diferente. Mais urgente, beirando o depressivo e alarmante. Não fosse a fala do MM Izidoro para fechar o evento e lembrar o público que o Brasil dá nó em pingo d’água e que temos que conhecer, cultivar e investir mais na nossa própria cultura, os consultórios das terapeutas na semana seguinte estariam cheios com o público do evento.
Outra questão de diferenciação fundamental é que o público não participou dos dois dias completos, se via uma troca de pessoas por palestra, por período e por dia. Assim como se viam pessoas com notebooks durante as palestras, atendendo alguma urgência do trabalho possivelmente, e muita gente com seus celulares. Capturando slides, momentos, falas, fragmentos, para registrar e postar que esteve lá e que estão por dentro dos assuntos todos da IA e das inovações.
O pensamento que ficou no meu mural mental virou um letreiro neon e tive que dar foco pra ele.
A White Rabbit apresentou um estudo que foi um dos pontos altos do Fast Company Innovation Festival e indico que você reserve um tempo para ler. O estudo está muito bem organizado em 6 grandes temas e traz dados importantíssimos para pensar o mundo daqui pra frente.
“Essa é talvez a dimensão mais sutil e perigosa da atrofia cognitiva: o ponto em que o cérebro se reconfigura para sobreviver no ambiente digital, mas perde a capacidade de imaginar fora dele. A plasticidade, que deveria nos tornar criadores de novas formas de pensamento, é capturada por algoritmos que antecipam desejos e simplificam escolhas. Byung-Chul Han em Sociedade do Cansaço (2010), alerta: a auto exploração e o excesso de positividade dissolvem o espaço do outro e, com ele, a possibilidade de transformação.” Soberania Cognitiva - Atrofia Cognitiva
Quando a gente passa mais tempo no digital do que no mundo orgânico nosso cérebro aprende a viver naqueles termos e naquela interface. A capacidade plástica que temos é incrível, mas quanto mais aprendemos a nos movimentar no digital, menos exercitamos e praticamos comportamentos que nos configuram como seres humanos. O estudo diz que “aproximadamente 58% dos brasileiros já recorreram à IA com o objetivo de usá-la como amigo ou conselheiro.” e que “A natureza não julgadora e a disponibilidade 24 horas por dia da IA tornam-na uma alternativa atraente para a socialização e o aconselhamento.” e ainda sobre a IA “Quando são treinadas para ‘concordar’ ou demonstrar empatia, acabam reforçando a sensação de estar certo, compreendido ou validado, mesmo quando as crenças são extremas ou falsas.”
A gente acaba preferindo conversar com o robô do que com as pessoas e a gente acaba perdendo a capacidade de diálogos que sejam de alguma forma divergentes, conflitantes e até diferentes perspectivas. Não tem como desenvolver a Teoria da mente, que é a habilidade de atribuir estados mentais em si e nos outros, para interagir socialmente. O que sobra é a bolha, o positivismo e o ódio pelo outro. Lembrem desse parágrafo nesse ano de eleições.
Desenvolve-se pouco repertório de enfrentamento, que é basicamente a experiência do confronto vivida repetidas vezes e que fortalece nossos músculos para aquela determinada situação. Cria-se um repertório de como agir, como sentir, como se comportar. Se não há enfrentamento, se a busca é apenas pelo confortável e convergente, não há repertório para uso quando chega o conflito. Só resta a ignorância.
A questão aqui não é apenas a polarização e o comportamento agressivo e repressivo, que seria suficiente para darmos bastante atenção a esse tema, mas a falta de diálogos consistentes, divergentes, profundos, assim como o “small talk” ou a conversinha de elevador, no ponto de ônibus. A falta das dinâmicas absolutamente humanas de olhar nos olhos, ouvir outra pessoa, equalizar sua vibração celular com a da outra numa conversa, numa dança, numa atividade, essas coisas que ativam em nós hormônios, neurotransmissores, que colocam todo nosso sistema nervoso e fisiológico em movimento, são essas coisas que estamos perdendo.
E é nesse cenário fisiológico que acontece a saúde, a criatividade e as ideias estratégicas.
Enquanto estamos imersos em nossos dispositivos eletrônicos e transferindo nosso esforço cognitivo para a IA, nos sentindo exaustas, doentes, rodando nas mesmas ideias e formatos, procurando alternativas em tudo que já foi feito, e nos sentindo tristes embaixo do cobertor vendo netflix, lá na Europa eles estão conversando entre eles. Flexibilizando currículos escolares (mudando leis para isso) para que estudantes possam aprender a pesquisar de maneira interdisciplinar. Estão cuidando da saúde com ingredientes que crescem aqui no nosso país em qualquer terra que você jogar semente (tem manga até nos canteiros de grandes vias de São Paulo!). Estão cuidando da atenção fazendo uma coisa por vez, estando presente nos eventos, com foco e interações humanas. E é ai que a gente pode perder de novo no jogo.
“É a entropia da inteligência: quanto mais conteúdo sintético é produzido, menos diversidade cognitiva alimenta o sistema e mais estreito se torna o campo de pensamento possível.
A homogeneização cognitiva é o novo risco civilizatório, — não pela escassez de informação, mas pelo excesso de repetições que diluem o inédito, tornando o diferente ilegível.” Soberania Cognitiva - Neocolonialismo Algorítimico
Quem vai alimentar a IA se a gente perder a capacidade criativa, crítica e estratégica? Se temos um população que consome de maneira alienada e outra que pensa critica e estrategicamente, qual é o cenário social que se desenha?
Tem gente que já está num outro momento de uso das tecnologias e já se ligou que deve cuidar da massa orgânica que chamamos de corpo para que seja possível sobreviver e viver com alguma qualidade nas próximas décadas.
Um dos painéis que assisti no GIF falou sobre a imaginação como elemento estratégico. Nosso cérebro assim como tem seu super poder de plasticidade, tem o super poder da imaginação ou A Louca da Casa como diz Rosa Monteiro. A gente criou tudo que existe com ela. Antes nada do que conhecemos existia. Imaginar é uma habilidade exclusivamente humana nesse planeta e imaginar coletivamente significa misturar ideias, histórias, narrativas, hipóteses e culturas inteiras.
O estudo aponta algumas alternativas de caminhos: “O desafio, portanto, é transformar a IA de muleta cognitiva em espelho reflexivo, fortalecendo a autonomia do pensamento humano.”
“Superar a atrofia cognitiva não significa rejeitar a tecnologia e sim reaprender a pensar com ela, não por ela. Precisamos fortalecer a reserva cognitiva, a musculatura invisível do foco, da curiosidade e da imaginação, por meio de práticas que devolvam corpo e ritmo ao pensamento.” Soberania Cognitiva
A saída é bastante simples do ponto de vista prático:
Se movimente. Mesmo que seja só subindo escadas.
Converse com pessoas diferentes e que não concordam com você sobre tudo.
Se alimente bem, na medida do possível. Coma da terra.
Passe menos tempo nas redes sociais digitais e mais tempo com sua rede social física.
Leia mais. Especialmente livros impressos. <3
Faça uma coisa de cada vez. Com atenção e presença.
Se cuide. ;)
Até a próxima semana.


Eu acabei de ler e estou completamente arrepiada com o texto.
Estou escrevendo sobre como a imagem de moda está usando a inteligência artificial, com seu livro do lado, é claro, além de Byung-Chul Han, Lipovetsky e vários autores. Já estava indicando 'O cérebro e a moda' e agora vou indicar o artigo também!
Chega dar um quentinho no coração ler um texto assim e saber que "não estou sozinha no mundo". Ufa! <3