Sobre a loucura
A Ansiedade (e os Medos). Nossas Expressões no mundo. E o Trabalho.
Tenho tido embates com meus medos. Eles são muitos, mais do que eu gosto de admitir ou até do que eu tenho consciência. Muitos medos.
Esse texto é bastante pessoal, mas já era tempo de eu trazer a ansiedade para o palco das minhas produções. Ela cansou dos bastidores. Louca.
É do medo que vem a ansiedade e talvez vocês já saibam disso, mas a gente fica sempre tratando apenas a ansiedade. É ela que nos paralisa, nos deixa mal, nos derruba. Mas antes dela vem o medo, é ele quem a deixa tão grande para nos consumir. O medo é que é o grande vilão, a ansiedade é só a louca que ele usa.
Mas bora organizar esse pensamento aqui: sou uma pessoa que sofre com ansiedade desde que me lembro por gente. Já passei por diferentes processos de compressão sobre essa emoção e o que ela causa. Já escrevi sobre ela inúmeras vezes quando tinha um blog e terapia after terapia para que eu siga vivendo com ela, mas da maneira mais saudável possível. Isso vem tão de longe que eu me lembro da minha avó materna pegar uma foto minha, no formato de um cartão de visitas, mas um pouco maior, que era também o meu convite de aniversário de 1 ano. Na foto eu estava com um sorriso gostoso e com as mãos como se tivesse batendo uma palma. Ela me mostrava essa foto e dizia: olha sua carinha! Parecia que você sabia que teria uma festa, que ia comemorar e estava feliz, mas (tinha que ter um mas) já estava ansiosa! Eu ia completar um ano de existência nesse planeta. Alguém me atestou a ansiedade ali.
Durante toda minha infância e início da adolescência me lembro de frequentemente ficar doente nos meus aniversários ou antes de apresentações na escola. Cara! Como a escola foi importante na minha vida… Lembro pouco ou quase nada das aulas padrão. Mas eu tinha uma turma de amigas e amigos e a gente inventava coreografias para jingles de propagandas e apresentava na sala ou no pátio (ainda não sabíamos do K-pop!), nas feiras de ciências e culturais fazíamos projetos tão incríveis! Me lembro das pesquisas, da mãe de alguém (quase sempre a minha <3) levar a gente para entrevistar uma médica, levar a gente para comprar tecidos para o figurino da peça que era nosso projeto e um sem fim de memórias incríveis sobre esses trabalhos escolares que me ensinaram tanto e pautaram o que eu faria para o resto da vida nas minhas escolhas profissionais. Era maravilhoso, mas (lembra do mas?) eu quase sempre ficava doente e muitas vezes perdia o dia das apresentações, da festa, do momento principal! Naquela época não se falava tanto em ansiedade. Minha mãe dizia que eu ficava muito nervosa.
Com 15 anos, numa viagem internacional, fui convidada para ser tradutora de um grupo de dezenas de adolescentes no evento que estávamos. Adivinha o que aconteceu? Comecei a passar mal. Em outro país. Minha mãe ficou muito preocupada e me levou num pronto atendimento ou numa farmácia mesmo, não me lembro direito, mas a pessoa vestida com um jaleco branco receitou um remédio que eu achei muito bonito na época (hahahaha sempre a estética salvando a gente. Até em pílulas!) era uma cápsula em gel, que hoje é super comum, mas na epóca era uma nova tecnologia que a gente nunca tinha visto. Minha família nunca foi de tomar muito remédios, a gente tinha metiolate e nebacetin que servia meio que pra tudo, se fosse mal estar tomava uma água de coco ou gatorade e pronto. O tal remédio não existia no Brasil e eu pensei: pronto! Nunca mais vou passar por isso! Tenho agora uma pílula que resolve. Pois tomei o remédio e dei conta do meu serviço adolescente de fazer a tradução simultânea no evento.
Trouxemos o remédio para o Brasil e sempre que eu sentia o tal mal estar quando ficava nervosa, tomava uma pílula e parecia mágica: tudo voltava ao normal.
O remédio se chamava advil. (hahahahahahaha!)
Não era a química do remédio que melhorava o que eu sentia, mas o que ele representava. Eu acreditava que era o remédio certo para o que eu tinha e ele funcionava como placebo.
Só descobri isso muitos anos depois quando comecei a fazer terapia, com 27 anos.
Pouco antes de um episódio que me fez parar de tomar o remédio eu fiquei um curto período de tempo desempregada e quando sentava na mesa para comer, qualquer refeição que fosse, eu ficava sem nenhum apetite. estava procurando emprego e sem eu saber, a ansiedade estava ganhando espaço no meu corpo, de outras formas. Isso passou logo que consegui um trabalho. E foi nesse mesmo período que comecei a estudar, de maneira independente, psicologia e neurociência.
Eu parei de tomar o remédio com 20, quando tive uma crise de ansiedade super forte antes de ir para uma viagem profissional, quando trabalhava na marca Adriana Degreas. A marca faria um desfile no Clube Med da Bahia, eu tinha uma nova gerente que tinha entrado na mesma semana e a produção do desfile seria minha responsabilidade. Comecei a passar mal e tive que ir pra casa, morava no interior de São Paulo nessa época e o escritório da marca era no Bom Retiro. Nem sei como cheguei em casa. Mas tive um momento ali de olhar minha trajetória, de respirar e pensar: “estou vivendo exatamente o que sempre sonhei para minha carreira, eu preciso superar isso.” Sem saber o poder da respiração profunda fiz isso intuitivamente e consegui me acalmar. Peguei o voo no dia seguinte e dei conta do desfile junto com a minha nova gerente que depois se tornou uma amiga muito querida.
Desde então pensei que tinha superado a ansiedade. Fiz coisas incríveis nos anos seguintes, viajei muito e estava vivendo um sonho. Mas como boa ariana inquieta eu queria experimentar outras coisas. Com 25 aceitei uma proposta para ser coordenadora de figurino numa emissora de televisão. Contratei e formei equipe, organizei o acervo e em menos de um ano eu passei para a coordenação da gerência de produção que tinha os times de figurino, beleza, plateia, camareiras, produção de arte, maquinistas e contraregras. Eram 120 pessoas na equipe e o volume de trabalho eu até hoje não faço ideia de como era possível fazer! Eu simplesmente AMAVA. E nos períodos de férias fazia consultoria internacional para marcas em feiras fora do país. Nosso corpo aguenta muito quando somos jovens né?
Eu dizia que não era ansiosa, que na verdade isso foi uma característica atribuída à mim e que eu aceitei. Minha mãe e ansiosa e muitas vezes pegamos características de pessoas próximas da família como nossas. Eu achava que era isso. O argumento era fortíssimo
Nesse período eu tinha tudo para voltar a ter as crises de ansiedade, mas não tive. A quantidade de trabalho não me permitia elaborar muito as experiências e eu só seguia. Foi o período em que fui mais magra em toda minha vida. Não tinha apetite e dizia que comida me fazia mal. Eu comia o suficiente para sobreviver e achava que estava tudo bem porque comia comidas saudáveis, treinava, fazia massagens e estava em dia com meu autocuidado. A ansiedade não veio pelo mal estar que me paralisava momentaneamente, mas se manifestou de uma maneira ainda mais profunda, com uma anorexia nervosa. Recebi o diagnóstico quando retomei a terapia depois do falecimento do meu pai.
Alarme para comer. Intensificar os treinos da academia. Terapia. E tudo que eu podia fazer para ficar bem e seguir em frente. Essa história aqui tem muitas outras trilhas, para além do trabalho, mas foi numa mudança de cenário profissional que aconteceu há quase dois anos que eu voltei a me conectar com essa louca da ansiedade. O contexto é muito diferente do passado. Tenho plena segurança da minha experiência e do que precisa dar conta, mas ainda assim: ela veio bagunçar minha cabeça e meu corpo. Sem entender sua presença fui buscar ajuda. Já fazia terapia, diversifiquei os exercícios físicos, li um monte de livros sobre o tema, comecei uma nutricionista ayurveda, acupuntura, voltei a fazer massagem, diminui a cafeína e o álcool.
Zerei o bingo do bem-estar e as crises voltaram. Com uma frequência que eu não me lembro antes de ter tido em toda minha vida (tenho 42 agora!). Fiquei assustada.
O que será que ela está tentando me dizer?
A primeira resposta é que: sim. sou uma pessoa ansiosa e por mais que o argumento de que isso foi algo que minha mãe me passou seja bom, não é isso não, a ansiedade é minha mesmo.
Depois é que a gente segue a vida em ciclos não lineares. As vezes o universo retoma conversas, aprofunda e a gente tem que parar e ouvir.
As vezes fico pensando se estou ficando louca. Como a ansiedade.
Mas pela primeira vez em muito tempo tenho falado abertamente que sou uma pessoa ansiosa. Que nasci morando no futuro. Que sou incapaz de olhar apenas para o agora, sem considerar e honrar o passado, e projetar, imaginar e sonhar o futuro. A Ansiedade existe para me lembrar que não é só o hoje não. Que essa onda de viver apenas o presente é um jeito de esquecer do que somos feitos e do que nos trouxe até aqui. Assim como pode nos alienar para o que podemos plantar hoje em prol dos futuros que desejamos. Hoje é um presente que foi construído ontem (quem passou dos 35 e toma um porre sabe do que estou falando. As ressacas só pioram!).
As crises de ansiedade me dizem de forma brutal que o tempo não é linear e quanto mais tentamos encapsular nossas realidades, mais adoecemos.
O trabalho é minha expressão no mundo. Minha produção. É loucura. Caos na mais pura essência.
Desde a escola eu produzo coisas: espetáculos, exposições, teatros, vídeos, shows, desfiles, experiências culturais e coletivas.
Sempre que eu percebo uma ameaça à essa expressão é a ansiedade, essa louca, quem vem me lembrar que eu não posso ser encapsulada. Como o tempo.
Se aceitar a ansiedade é me assumir louca… acho que é isso então.
Obrigada por ler e espero que faça algum sentido nas reflexões que você tem feito por aí.
Até a próxima ;)



Sinta meu abraço daqui – e muito obrigada por compartilhar seu relato.
Me senti abraçada de alguma forma pelo teu texto.
Tenho Transtorno de Ansiedade Generalizada desde os 23, lido com ela há 10 anos, e ainda lembro do psiquiatra de jaleco branco naquele consultório todo branco, frio, horrível, falando de um jeito seco (e frio) que eu precisava tomar remédio e era isso.
Foi uma luta pra entender muita coisa e só agora, depois de 10 anos de terapia, eu descobri o que você falou: que a ansiedade vem do medo. Nos últimos meses, tenho olhado para os meus medos de perto, ficado ainda mais ansiosa como parte do processo, mas estou tentando seguir em frente. Fácil não é, e a gente sabe.
E, sendo um clichê ou não, lembrei daquela frase do filme Alice no País das Maravilhas:
"Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são." <3